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25 de julho de 2017
Ciúme patológico ou Síndrome de Otelo

O ciúme é uma das emoções mais comuns do ser humano (Kingham & Gordon, 2004; Buss, 2000; Leite, 2000). É compreensível, que em certa medida haja receio em perder o parceiro, segundo Bottura Junior (2003), é natural sentir medo pela ameaça de uma perda afetiva, temor em ser excluído da vida da pessoa amada.

Apesar do consenso quanto à presença do ciúme em todas as culturas, a literatura aponta muitas controvérsias sobre o assunto, o que dificulta o discernimento entre ciúme normal e patológico. Estudos sobre essa temática são necessários, seja em função da dificuldade em estabelecer o diagnóstico, por ser pauta recorrente em terapias de casais (Leite, 2000).

Então, se o ciúme começou a trazer queda na sua qualidade de vida e/ou na do parceiro, deve-se ficar atento, pois há a possibilidade de ser um quadro patológico.

O ciúme mórbido ou patológico, também chamado de Síndrome de Otelo, em referência ao romance shakeasperiano –  no qual o personagem principal, possuído por um ciúme doentio, mata sua esposa, Desdêmona. – traz consigo muitos sentimentos perturbadores, fora de proporção e absurdos. O que fica claro no ciúme patológico é o desejo de controle sobre o parceiro, além de preocupação excessiva com os relacionamentos anteriores.

Então, de um mecanismo de proteção que visa preservar a qualidade e o bom andamento do relacionamento amoroso, o ciúme passa a se tornar patológico, ultrapassa os limites do bom senso, sendo de difícil controle e compreensão.

Quem tem ciúme patológico está em constante busca por provas ou confissões de uma traição, ainda que esta nem tenha ocorrido, essa busca e confrontamento constante com o parceiro, aumenta o mal estar entre o casal.

Comportamentos comuns a essa síndrome são: vasculhar carteira, bolsos, contas, roupas do parceiro, seguí-lo ou mesmo contratar detetives particulares, o que não costuma aliviar as sensações experimentadas e sim, acarretar em sentimentos de remorso e inferioridade. Exemplos de casos extremos foram estudados por Wright (1994) e o de Torres et al., (1999). No primeiro, uma paciente chegou a marcar o órgão do marido com caneta para conferir o sinal no final do dia. O segundo, um paciente chegou a examinar as fezes da namorada, procurando possíveis restos de bilhetes engolidos.

Para Cavalcante (1997)  o ciúme patológico é um transtorno afetivo grave, que corrói e destrói o relacionamento e os sentimentos; é uma perturbação em que o indivíduo se sente constantemente ameaçado. Nesses casos, muitas vezes, a relação é baseada na posse; o que impede um amor maduro e saudável. O relacionamento torna-se muito angustiante, tenso, carregado de uma intensa carga emocional negativa (Cavalcante, 1997). Essa carga emocional negativa abarca sentimentos como ansiedade, culpa, raiva, sentimento de inferioridade, depressão, imagens intrusivas, remorso, humilhação, insegurança, vergonha, rejeição, angústia, desejo de vingança, possessividade, baixa autoestima, gerando significativo prejuízo no funcionamento pessoal e interpessoal de quem sofre desse mal (Bottura Junior, 2003; Cavalcante, 1997; Torres et al. ,1999).

síndrome de Otelo pode se dar sozinha ou em decurso de algum outro comprometimento psíquico: esquizofrenia, alcoolismo ou dependência de cocaína. Casos de ciúme patológico estão cada vez mais recorrentes na clínica, na busca do casal por uma relação mais saudável e dinâmica. É importante que profissionais diversos, sobretudo psicólogos e psiquiatras, conheçam o assunto e se preparem para auxiliar no tratamento, para proporcionar o ajustamento conjugal.

Referências Bibliográficas:

Bottura Junior, W. (2003). Ciúme: entre o amor e a loucura. São Paulo: República Literária, 2003.

Buss, M.D. (2000). A paixão perigosa. Rio de Janeiro: Objetiva.

Cavalcante, A. M.(1997). O ciúme patológico. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997.

Kingham, M. & Gordon, H. (2004). Aspects of morbid jealousy. Advances in Psychiatric Treatment, 10, 207-215.

Leite, S.M.C.S. (2000). Ciúme e inveja: a visão comportamental. Em R. C. Wielenska (Org.), Sobre comportamento e cognição questionando e ampliando a teoria e as intervenções clínicas e em outros contextos, vol. 6. (pp. 74-77). Santo André: ESETec Editores Associados.

Torres, A. R.; Ramos-Cerqueira, A. T. A.; Dias, R. S.(1999). O ciúme enquanto sintoma do transtorno obsessivo-compulsivo.Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 21, n. 3, jul/set.

Wright S.(1994). Familial obsessive-compulsive disorder presenting as pathological jealousy successfully treated with fluoxetine. Arch Gen Psychiatry;51:430-I.

Autora:

Olívia Rodrigues da Cunha

Psicóloga – CRP 09/10114

Psicóloga formada pela PUC-GOIÁS  (2015) , com ênfase em  Psicologia Clínica. Especialista em Saúde Mental (UNYLEYA, 2016) e Mestranda bolsista pela CAPES, em Psicologia com ênfase em Psicopatologia Clínica e Psicologia da Saúde (PUC-GOIÁS).  Experiência clínica em terapia de casal,  transtorno de personalidade borderline e manejo de ansiedade.

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