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17 de outubro de 2017
Mas afinal, a quem está direcionado o trabalho do psicólogo clínico?

Não é raro aos profissionais ou ainda estudantes de Psicologia, quando dividem sua escolha profissional, ouvirem frases do tipo “Psicólogo só mexe com doido” ou “terapia não funciona, é só conversa. Conversa eu tenho com meu amigo, meu parente, meu líder religioso”.

Esses equívocos além de comuns estão relacionados principalmente a dois fatores. O primeiro, a falta de conhecimento dos não psicólogos sobre o que é o exercício profissional da Psicologia no contexto clínico. E segundo, que colabora muito com o primeiro, os profissionais veicularem pouca informação sobre em que se pauta o trabalho clínico.

Lembrando, que os psicólogos exercem tarefas diferentes em ambientes distintos. Estão presentes como psicólogos organizacionais em empresas, em hospitais no papel de psicólogos hospitalares, nas instituições de ensino como psicólogos educacionais, entre outras tantas possibilidades. Porém aqui, pretendo me ater ao trabalho do psicólogo clínico.

“Psicólogo só mexe com doido” quando no senso comum a palavra “doido” refere-se a transtornos mentais, está correta, embora incompleta e superficial. Psicólogos realmente estão habilitados a prestar serviços a pessoas acometidas pelos diferentes transtornos mentais, mas não é só a essas pessoas que o psicólogo pode ser útil.

O psicólogo, a relação que constrói com o cliente e a terapia em si, podem oferecer ganhos significativos a pessoas que mesmo sem diagnóstico de algum transtorno mental, passam por algum tipo de sofrimento. Alguns exemplos são: pessoas com alto nível de ansiedade, problemas de autoestima, para quem sofreu alguma perda significativa, pessoas que se encontram em crise (pessoal, familiar, profissional, social ou afetiva). O psicólogo pode ajudar em quadros de mania , tiques, obsessões e compulsões em geral, em fobias, após eventos de grande impacto (demissão, divórcio, doença, acidente..).

O profissional também é útil a pessoas que tem dificuldades de aprendizagem, de adaptação (envelhecimento, nova condição social, configuração familiar..), em casos de disfunções sexuais, distúrbios alimentares, dependência de álcool ou drogas. Sem esquecer que a procura pelo psicólogo pode acontecer sem a presença de algum sofrimento iminente, sendo no intuito do autoconhecimento.

Estas são algumas, mas não todas as situações em que auxílio psicológico pode ser benéfico e que fogem do estereotipo simplista e excludente de “profissional que atende a doidos”. Sendo assim, prefiro dizer que o psicólogo é quem através da escuta profissional, respaldado por uma teoria consistente e pela aplicação de técnicas próprias de sua área, busca pelo resgate do bem-estar, da qualidade de vida, da autonomia e autoestima daquele que procura sua ajuda.

Já a segunda frase “terapia não funciona, é só conversinha. Conversa eu tenho com meu amigo, meu parente, meu líder religioso “. Algumas conversas com pessoas significativas podem trazer conforto, alívio e produzir insights. Nesse caso, não se trata de uma ajuda profissional, ainda que essas pessoas queiram te ver bem, o tipo de escuta e aquilo que dizem não se assemelha ao trabalho de um psicólogo.

O papel do psicólogo não é o de oferecer soluções (pois ele não as tem), nem de dar opiniões ou mesmo aconselhar quem o procura, não é isso. Um bom psicólogo te acolhe e te aceita. E a partir daí, auxilia no processo de mudança almejado pelo cliente. Mas como? Ouvindo sem julgamento, oferecendo interpretações e averiguando se estão corretas e se fazem sentido, propondo exercícios que auxiliem na melhora do caso, treinando a flexibilidade psicológica e ampliando a consciência daquele que buscou terapia a respeito de si, da sua relação com os outros e sobre a maneira como se comporta e atribui significado as experiências que vive.

 Então, o psicólogo seria uma espécie de co-piloto em uma viagem, você não viajará sozinho, o profissional estará de olho nos radares, na condução do percurso, alertará quando necessário e zelará para que o trajeto transcorra em segurança. Mas ainda assim, o motorista, quem dirige, escolhe o destino, a velocidade e o melhor caminho até o destino, é você…Afinal, estamos no seu carro, ninguém melhor do que você, para guiá-lo.

Por fim, “terapia não funciona” quanto a isso não há previsibilidade de como se dará o desenrolar de um tratamento e não dá para  assegurar que os resultados alcançados no processo estejam de acordo com os esperados. Contudo, dificilmente alguém passará pelo processo psicoterápico, sem ser transformado por ele em algum nível. E a força dessa transformação se dá, sobretudo a três fatores: a disponibilidade do cliente ao processo. O quanto está realmente engajado no processo, pois há casos em que as pessoas consideram que  comparecer a terapia por si só tenha que ser terapêutico, e não é assim. A efetividade da terapia se deve muito ao compromisso do cliente dentro e fora de sessão, no que o cliente aprende em terapia e aplica fora do consultório.

 Depende também do engajamento do psicólogo, o quanto se envolve no caso, estuda, busca apoio (supervisão, por exemplo) e maneiras para oferecer àquele cliente o seu melhor. Por último, e não menos importante, o sucesso da terapia depende da qualidade do vínculo construído entre o profissional e o cliente, da afinidade entre a dupla, o quanto confiam um no outro e na forma eficiente (ou não) que desenvolvem o trabalho juntos. A sintonia entre a dupla é tão importante quanto abordagens e técnicas. Uma relação bem estabelecida está pré-condicionada a ser terapêutica.

Vale lembrar que terapia, exige esforço, tempo e paciência de quem se propõe ao processo. Os benefícios costumam ser duradouros e refletir em várias esferas da vida do cliente. Apesar disso, é um processo na maioria das vezes lento e nem sempre fácil.

Da mesma maneira como há falas que motivaram o texto, não é raro após um “sou psicólogx” dito em uma conversa informal a um conhecido, ouvir “fiz/faço terapia e me ajudou/ajuda muito, passei a gostar mais de mim, da minha vida, consegui isso ou aquilo”, as três frases citadas são igualmente válidas. Uma vez que refletem a importância desse trabalho, da dedicação necessária a ele e o quanto ainda precisamos divulgar o que a Psicologia tem e pode oferecer. Cabe ao terapeuta o constante aperfeiçoamento na sua tarefa de co-piloto e cabe aos clientes decidirem por serem motoristas dos caminhos que desejam percorrer.

Autora:

Olívia Rodrigues da Cunha

Psicóloga – CRP 09/10114

Psicóloga formada pela PUC-GOIÁS  (2015) , com ênfase em  Psicologia Clínica. Especialista em Saúde Mental (UNYLEYA, 2016) e Mestranda bolsista pela CAPES, em Psicologia com ênfase em Psicopatologia Clínica e Psicologia da Saúde (PUC-GOIÁS).  Experiência clínica em terapia de casal,  transtorno de personalidade borderline e manejo de ansiedade.

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